Redes de idéias
Na tentativa de dar um pouco de ordem nos assuntos do meu blog estou tentando destinar os posts das sextas à Internet, comunicação, questões pessoais e coisas do tipo, assim como dedico as segundas à política e as quartas à literatura; deixando os dois outros dias livres para repicar algum tema ou falar de algum outro assunto.
Engraçado que os avanços da informática e telecomunicações parecem ter sido sempre o ponto mais subestimado na ficção científica, até mesmo nos últimos anos quando o enorme avanço da área fez com que eles se tornassem objetos de vários livros e filmes sobre o assunto. Uma avaliação simples pode ser vista no fato de nem sequer estarmos próximos do padrão de viagens estelares e exploração do espaço retratadas em muitos destes cenários, mas já jogamos no lixo há tempos as telas de fósforo verde que aparecem em muitos deles.
A velocidade com a qual a tecnologia se espalha e se desenvolve tem sido muito maior mesmo do que o previsto na ficção científica e não consigo imaginar nenhum outro setor no qual isto ocorra. Mesmo o ponto chave da ficção científica mais terrível, a ameaça da Inteligência Artificial, não parece estar muito distante.
Sempre fui grande entusiasta da informática. Lembro-me que na época da universidade era praticamente o único de todo o departamento – era um curso da área de Humanidades – que tinha intimidade com hadware e principalmente com software. Naquele tempo, final dos 80 e início dos 90, acho que as pessoas eram mais conservadores em termos de tecnologia que eram hoje. Lembro que muitos odiaram o primeiro 386 que chegou ao departamento com Windows porque nele não dava para usar o Wordstar, único programa com o qual tinham se acostumado.
Hoje acho que é mais comum as pessoas se entusiasmarem com novos programas, novos recursos, novas versões. Até diria que é um pouco até preocupante um conceito que se incorpora com força no nosso imaginário: tudo que é novo é melhor. Esta visão de mundo com conseqüências preocupantes só conseguiu entrar no nosso cotidiano devido a tecnologia.
Também estou on-line desde 94, numa época em que a Internet ainda era uma coisa meio misteriosa. Certamente ela ainda guardou muito de uma certa imagem mágica, mas felizmente já não é mais uma ferramenta de opressão ou status como era. O que sempre vi de interessante na Internet foi a capacidade de comunicar-se com pessoas de interesses similares sem o limite das barreiras físicas.
É evidente que também sempre usei a rede como a grande biblioteca que ela é, mas sempre achei a perspectiva de interação muito mais relevante, até porque sem a intermediação de relações pessoais físicas, portanto orientada apenas em função das afinidades mentais, como se as idéias é que se comunicassem entre si.
Pude testemunhar bastante isto esta semana, tanto debatendo com inúmeras pessoas esta situação de insegurança, quase guerra civil, em São Paulo e, ainda mais, tendo a satisfação de trocar impressões sobre Amin Maalouf com a grande especialista neste autor que é Monica Kalil e com Antonio Moreira, como eu leitor assíduo e apaixonado de Maalouf, ou ainda de debater a Tradição Primordial em Guénon com Maria Olga. Experiências gratificantes estas que certamente não seriam possíveis dentro dos limites restritos de espaço e tempo do mundo real.
A perspectiva de um lado de encontrar pessoas de interesses similares, por menor que seja o “nicho” ou segmentação que se possa imaginar, de outro a possibilidade de trabalhar em conjunto – no qual imagino que deva haver o maior avanço tecnológico nos próximos anos. Esta combinação trás um imenso potencial de cooperação e construção de laços em torno de idéias, ainda que por vezes seja necessário dar uns “sumiços” para elaborar tantas coisas, pois como disse Gibbon em O Declínio e a Queda do Império Romano, “a conversação estimula amente, mas a solidão é a escola do gênio”.
